terça-feira, 9 de setembro de 2008

Cocaina I

Pensamentos rígidos, cortantes, pairantes. Afirmo-me no silêncio com vontade de engolir a minha própria língua, enjoam-me as palavras que são lançadas sem nexo, talvez pela arrogância de achar um abuso que tentem voar dentro de mim. A mente oscila afiada como uma lamina, ou apenas como uns braços abertos cheios de fome tentando provar o barro do Vazio. Humidades e lamas, terras húmidas não pensadas, na verdade apenas olhos franzidos, apenas o desejo de reclamar porque há muita luz no mundo, muita conversa a iluminar. Por outro lado apetecia-me a doçura das ruas desertas naquela madrugada, apetecia-me partilhar a minha desconexão com o mundo e tentar explicar o porquê do mundo poder estar prestes a acabar. Apetecia-me gritar por socorro e lançar-me nos vossos braços, derreter-me e escapar-me por entre as vossas roupas num grito, numa agonia, abrindo tanto a boca e os olhos que vocês pudessem, nem que por breves instantes, visualizar o turbilhão, a crista das ondas, o colapsar divino.